Existem quatro relatos sobre a
crucificação de Cristo na Bíblia e, hoje, diversas encenações a esse respeito.
Dentre elas, uma ganhou notoriedade no mundo inteiro, alcançando inclusive
países de predominância muçulmana: o filme “A Paixão de Cristo”. Nesse filme,
Mel Gibson tenta reproduzir, com a maior fidelidade possível, o que Mateus,
Marcos, Lucas e João relataram em seus evangelhos acerca de todos os episódios
que envolveram a prisão, humilhação, tortura e crucificação de nosso Salvador.
Como a cruz foi a principal causadora de dor e sofrimento ao nosso Mestre.
Apesar de o filme trazer cenas
impactantes, não conseguiu transmitir plenamente a realidade dos fatos em sua
totalidade. Creio que o sofrimento de Cristo foi além daquele dramatizado na
obra. A cruz parecia, naquele momento, ter vencido o Filho de Deus. O Diabo,
sorridente e não conhecedor dos planos insondáveis de Deus, achou que a cruz
havia vencido o Messias e, por fim, se tornaria definitivamente um objeto
maldito para todos os homens.
No terceiro dia, para total
frustração do inimigo de nossas almas, Jesus ressuscitou, vencendo a morte e
resgatando a criação por meio dessa mesma cruz. A partir de então, esse objeto,
antes considerado maldito, tornou-se o símbolo da nossa vitória e triunfo.
Paulo usa com muita propriedade o simbolismo da cruz: “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas, para nós,
que somos salvos, é o poder de Deus” (1 Co 1.18); “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor
Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo.”
(Gl 6.14).
A cruz, para nós cristãos,
tornou-se o símbolo da reconciliação do homem com Deus, como afirma ainda o
apóstolo Paulo: “Na sua carne desfez a
inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para
criar em si mesmo, dos dois, um novo homem, fazendo a paz e, pela cruz,
reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades.” (Ef
2.15-16).
O significado da cruz traz
outras conotações para os homens além de vitórias e conquistas. Talvez todos,
ao lerem este texto, concordem com tudo o que escrevi até aqui, sem retirar uma
vírgula, pois quem não gosta de ouvir sobre vitória, não é mesmo? Porém, o
símbolo da cruz não possui apenas essa vertente: ele indica que a vitória é
real, mas não sem lutas, sofrimentos e dores e esta é a parte que muitos
cristãos hoje procuram ignorar (At 14.22).
Muitos, hoje, de forma
irresponsável e até maquiavélica, para inflar o próprio ego, enriquecer e lotar
suas “igrejas”, têm pregado um evangelho triunfalista, no qual ensinam apenas
parte do significado da cruz. A parte fácil, agradável e confortável, sendo
vitória, vitória e vitória.
Jesus nos apresenta outro
significado para a cruz quando diz: “Se
alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e
siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua
vida por minha causa, esse a salvará.” (Lc 9.23-24). Jesus afirmava aos
seus ouvintes que, para segui-lo, era necessário abrir mão do próprio “eu” e
carregar diariamente a sua cruz, no sentido de que há a possibilidade de
enfrentarmos lutas, desafios, sofrimentos e tempestades. Ser seu seguidor não é
receber um atestado de imunidade ao sofrimento, mas a garantia de morar com Ele
em seu Reino eterno, tendo o nome escrito no Livro da Vida.
Não pretendo, de forma alguma,
fazer apologia ao sofrimento, às lutas ou à dor, mas apresentar uma visão
realista e bíblica acerca da cruz e de seus simbolismos.
No evangelho de João, capítulo
16, versículo 33, Jesus afirma: “Tenho-vos
dito isto para que em mim tenhais paz…” Pela forma como muitos anunciam o
evangelho hoje, parece que a continuação do texto seria algo como: “no mundo, ser meu seguidor lhes garantirá
uma vida sem sofrimento, com prosperidade e plena saúde.” Porém, quem
conhece as Escrituras sabe que não é assim. A continuação correta é: “No mundo, passais por aflições; mas tende
bom ânimo; eu venci o mundo.”
Ele enfrentou a cruz, não fugiu
dela e, nela, foi exaltado, tornando-se invencível e assentando-se à direita do
trono do Altíssimo.
Portanto, é impossível ser um
seguidor de Cristo sem compreender profundamente o significado da cruz. Não
como um objeto místico, mas como um símbolo cheio de sentido. A cruz nos mostra
que o nosso Reino não é deste mundo e que, nele, muitas vezes enfrentaremos
sofrimentos. A garantia que Jesus nos dá é que, assim como Ele venceu, nós
também venceremos, se perseverarmos nele. Assim como Ele sofreu, morreu e
ressuscitou, nós, seus seguidores, também sofreremos. Não sabemos em que
intensidade, pois isso pertence a Deus, mas ressuscitaremos com Ele para uma
eternidade de glória. Valerá a pena carregarmos diariamente a nossa cruz. Não
há possibilidade de desprezá-la, se realmente desejamos morar no céu.
Soli
Deo Gloria
Juvenal
Oliveira


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