Que transtorno sentimos quando perdemos algo!
Muitas vezes, compromissos precisam ser adiados ou cancelados pela falta de um
objeto essencial para o momento. O pior, entretanto, não é a perda em si, algo
natural, pois perdemos coisas a todo instante. Mas sim a convicção de que o
objeto está, o tempo todo, em casa. Diante dessa experiência, alguns afirmam
categoricamente: “Eu não o perdi; ele está em algum lugar por aqui, tenho
certeza de que o acharei.”
A verdade é que o objeto estar na residência não
significa que ele não esteja perdido, até que se torne novamente alcançável e
disponível. Enquanto não for encontrado, qual a diferença entre algo perdido no
próprio lar ou em qualquer outro lugar? A realidade é que permanece perdido, e
ponto. A pior perda não é a visível, óbvia ou aparente, mas aquela que não
percebemos de imediato, cujos danos podem se tornar irreparáveis.
Utilizo a analogia da perda de um objeto apenas
para facilitar o entendimento de um assunto muito mais valioso. Há alguns anos,
o simples fato de mantermos nossa família nos muros de nossa propriedade era
suficiente para sentirmos segurança. Com o advento da internet e das redes
sociais, esse cenário mudou drasticamente: as pessoas agora acessam o mundo
inteiro de dentro de seus quartos.
Confesso que ainda não sei o que é mais perigoso: o
mundo físico ou o virtual, onde caráter e intenções permanecem ocultos. Muitos
seguem desatentos à evolução do mundo, crendo que sua família está a salvo
apenas por estar em casa. Ledo engano. Maridos, esposas e filhos vêm traçando
caminhos perigosos que se originam no próprio lar através do acesso indevido às
redes. O resultado é uma série de experiências amargas: divórcio, adultério,
exposição moral, vícios e violência. A triste realidade é que existem famílias
perdidas dentro de suas próprias casas.
Essa “perda despercebida" também se manifesta
na vida espiritual individual. Existe uma palavra muito utilizada na atualidade
da qual, particularmente, venho tentando me desvincular: “evangélico”.
Infelizmente, o termo tornou-se, na prática, a banalização do cristianismo.
Você pode questionar o que isso tem a ver com o assunto, e eu diria, sem medo
de errar: existe uma multidão de “evangélicos” perdidos na casa do Pai. Para
eles, a religiosidade traz uma falsa sensação de segurança.
Na parábola do Filho Pródigo (Lc 15.11-32), embora
a ênfase costume recair no caçula que partiu, aprendemos muito com o filho mais
velho. Seu comportamento revela nuances de alguém que, apesar de estar
fisicamente em casa, não conhecia verdadeiramente o Pai. Há, inclusive, um
fator agravante nos dias de hoje: enquanto o filho mais velho da parábola ao
menos obedecia, muitos dos que hoje se dizem cristãos não conhecem o Pai e
ainda vivem em desobediência à Sua Palavra.
Levantei aqui duas situações de perdas silenciosas,
as mais perigosas justamente pela probabilidade de não haver tempo suficiente
para o retorno. Todavia, a narrativa de Lucas nos diz que o filho mais novo, em
certo momento, “caiu em si” (v. 17). Ele despertou do transe e retornou.
Este é o tempo de todos nós: maridos, esposas,
filhos e cristãos, sairmos do transe e voltarmos urgentemente à comunhão real.
O Pai permanece de braços abertos para receber cada filho que se perdeu em
casa. Tenhamos apenas o cuidado de não abusarmos do tempo, pois, como disse o
profeta Isaías: “Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto
está perto” (Is 55.6).
O tempo se chama “hoje”.
Soli Deo
Gloria
Juvenal
Oliveira


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